Narradores de Javé

A partir dessa semana, uma vez por mês, terei a honra de contar com a colaboração de algum amigo no blog. Esse mês fiz o convite, aceito prontamente, por Valdir Félix da Conceição. Professor de História e apaixonado por cinema. Segue abaixo seu comentário sobre esse belo filme. Assino embaixo suas palavras.








Os Narradores de Javé

Javé, uma pequena cidade do interior da Bahia, com todos os típicos problemas sociais, políticos econômicos de qualquer cidade castigada do sertão nordestino, com um povo que luta pela sobrevivência de maneira guerreira e sofrida. Daria para fazer qualquer filme clichê com essas informações prévias dessa cidade, porém não é isso que verificamos ao assistirmos o belíssimo longa Os narradores de Javé, obra de uma sensibilidade e beleza que pega de surpresa qualquer um que pare e aprecie com cuidado e atenção.


O filme conta a história de uma cidade ameaçada pelo “progresso”. O governo da Bahia vai construir uma barragem para a usina hidrelétrica e a cidade será inundada, só ai já é possível fazer um debate interessante sobres os impactos ambientais que esse tipo de obra causa em uma região.

A população entra em desespero para tentar salvar Javé das águas do “progresso” e na tentativa de encontrar uma saída resolvem escrever uma história “cientifica” da cidade para tentar provar as autoridades que Javé tem uma memória e uma identidade que precisa ser preservada.


Novamente já abrimos os horizontem que possibilitam mais uma série de discussões interessantes, como por exemplo, a noção de identidade, a importância da memória para um povo, e até o próprio conceito de progresso, ou seja, como já foi mencionado antes, essa obra possibilita inúmeros tipos de debate.


Mas quero chamar atenção aqui para uma questão que acho muito interessante para pensarmos a respeito da importância da memória em uma sociedade.


Em Javé, os moradores viram no resgate da memória a única saída para tentar salvar a cidade, mas se depararam com alguns problemas seríssimos na hora desse trabalho, que nos ajuda a refletir sobre varias questões. Vou levantar algumas, claro sem o objetivo de conclusões, somente para reflexões mesmo:

1- A cidade exige que um morador (Antônio Biá) que havia sido expulso por escrever cartas difamando outros moradores (ele fazia isso para ter movimento nos correios, pois era funcionário da agencia e poderia perder o emprego em uma cidade de analfabetos) seja o homem responsável por salva-los da inundação. Agora ele estava sendo cobrado pela cidade para prestar serviços de “historiador oficial” de Javé e tinha como missão escrever a história “científica” da cidade para tentar salva-la do “progresso”. E ele era o único que sabia escrever na cidade e usou esse poder no passado para o mal, agora tinha que usar para o bem. (Pobre Biá, por alguns momentos no filme ele até acredita que essa missão era simples e rápida).

2- O meio mais fácil para o “historiador” de Javé conseguir escrever a história da cidade era ouvindo os antigos moradores e colhendo seus depoimentos, porém em um dado momento ele percebe que seu cargo, não só poderia ajudar a se redimir do mal que tinha feito anteriormente, como também lhe trazia um certo status perante a sociedade de Javé, e claro ele começou a usar isso a seu favor, em uma cena muito bem humorada ele aparece negociando com o barbeiro da cidade um ano de corte de cabelos e barba aparada só pra colocar em destaque o depoimento contanto a historia da família do mesmo no livro salvador de Javé.


3- Nosso “historiador” começa o trabalho de ouvir os moradores contando suas histórias sobre o surgimento da cidade ou sobre a chegada de suas famílias em Javé. É ai que o que parecia fácil se complica, pois cada morador ou grupo tinha uma versão totalmente diferente de contar o mesmo fato.


O interessante de quando isso acontece é que ele vive exatamente o dilema que um historiador profissional vive ao fazer uma pesquisa desse tipo. Ele se depara muitas vezes com versões diferentes de um mesmo fato, e tem que escolher ou saber analisar onde estão as fissuras do passado para tentar equilibrar e fazer uma boa interpretação que possibilita a compreensão e elaboração da identidade e memória de uma sociedade ou de um povo.


Isso mostra a importância que a História tem para um povo, imaginem um homem que sofreu um acidente e perdeu a memória, não lembra quem é, de onde veio, quem são seus familiares, filhos, esposa, se tem casa. Seria uma vida vazia, sem sentido, sem rumo.

Imagine uma sociedade sem memória, isso seria uma catástrofe coletiva, uma sociedade sem passado, sem entender o presente e sem perspectivas para o futuro, seria o fim da História.


Se pensarmos que A História é uma construção, narrativa, conceitual e documental que tenta resolver uma assimetria existente entre o passado e o futuro. E o historiador é o profissional que tenta pensar e entender essa fratura na sociedade. Ele escreve a respeito de perspectivas de futuro a partir de diversas perguntas que faz ao passado. Lembrando que é o tempo presente quem orienta as perguntas a serem feitas a esse passado, portanto a relação do historiador com sua profissão é sempre social.


Isso possibilita ao assistirmos o filme, observar e refletir sobre a difícil missão que tem o “historiador de Javé” que é colocar no papel de maneira organizada tudo que ouve o povo lhe contar, com versões tão distintas sem descriminar ninguém e nenhum grupo, pois afinal, todos fazem parte da cidade e todos são então parte do patrimônio de Javé. Pobre de Antônio Biá. De um mero funcionário público passou a salvador da pátria, mostrando a nós telespectadores como é importante conhecermos a História e como é complicado e difícil a profissão de historiador.


Recomendo o filme para que possam colaborar nessas reflexões, inserindo novas e possam também rir um pouco, pois além de todos esses debates possíveis aqui levantados, é um trabalho de muito bom humor, e como diria o mestre da sétima arte Charles Chaplin: “Tenho a impressão que os homens estão perdendo o dom de rir”.

Então convido a todos para que esse dom jamais se perca no tempo.


Nota 5 com louvor.

Valdir Felix C. Gonçalves.



Filme: 5 - pipocas - ótimo

1 - pipoca - péssimo

2 - pipocas - ruim

3 - pipocas - razoável / regular

4 - pipocas - bom

5 - pipocas - ótimo




21 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

é realmente um belo filme, renato. o dumont é um dos nossos grandes.

O Falcão Maltês

Fábio Henrique Carmo disse...

"Narradores de Javé" é um ótimo filme. Um longa sem grandes pretensões, desconhecido de muita gente, mas com grandes qualidades, como as realçadas no texto do convidado. Aliás, muito boa a ideia de convidar seus amigos para contribuírem também, Renato! Abraço!

Hugo disse...

Boa ideia de convidar pessoas para escrever no blog.

Quero assistir este filme há muito tempo, mas ainda não tive oportunidade.

Abraço

expirados disse...

Interessante iniciativa. E filme que vale a pena!

Amanda Aouad disse...

Bom resgate, gosto muito de Narradores de Javé, a simplicidade como a história vai sendo contada como uma espécie de "causo" no bar. E legal ler um comentário pelo viés do historiador.

Vanessa Santos disse...

Primeiramente gostei muito do seu blog!Estou seguindo. E em relação ao filme me deu mais vontade ainda de ve-lo!Pena que não é fácil acha-lo!
Tb tenho um blog de cinema(amo de paixão essa arte)quando puder de uma passada lá!
http://quaseumfilmepordia.blogspot.com/

Renata disse...

Olá...adorei a ideia de convidar amigos e pessoas especiais para participar do seu blog. Lendo o comentário, fiquei mto animada para assistí-lo tb. Adorei a iniciativa e o texto.
Abraços e parabéns!!!

Duda Falcão disse...

Olá, Renato!

Legal a tua inicitiva.

Um abraço!

Ro Soares disse...

bela iniciativa, parabéns, o blog é muito bom mesmo!!

quaresma. disse...

que bacana essa coisa de ter gente nova por aqui, mas eu confesso que te prefiro (:

beijas, eterno ;*

renatocinema disse...

Fico feliz pela minha preferência Quaresma.......Honrado e orgulho, eu diria.

Beijos

Tsu disse...

Renato...
OI!!!
kkk
Tudo bem contigo?
bjs

Rosane Marega disse...

Oie, pessoa querida que sempre deixa um carinho especial em meu cantinho, me fazendo sorrir!
Estou ausente realmente, mas tenho um carinho enorme por você, nunca o esqueço, pode acreditar.
Que atitude linda a sua, de receber amigos para postarem suas opniões, isso é muito legal, parabéns!
BeijoOOOOOO imenso e por favor não deixe de me visitar, prometo vir mais vezes por aqui.
BeijooOOOOO

Celo Silva disse...

Parabéns pela iniciativa Renato.Ótima resenha Valdir. Adoro esse filme, emocionante e divertido na medida certa. Abs!

Tsu disse...

Oi Renato!
Quando vi a foto do cosplay do Salsicha com o Krueguer eu pensei: essa eu tenho de colocar rs.
bjs

Maria Gabriela disse...

Não consigo clicar na sua dica.
Só consigo ler 1972... mais nada

Karla Hack dos Santos disse...

Que bom ficar sabendo deste filme!!!
Não conhecia, mas parece fabuloso mesmo!

;D

Tsu disse...

Oi Renato!
Opa um post de Top7 carecas? É uma boa idéia! Mas não conheço muitos..dê algumas dicas de personagens!

Tsu disse...

Oi Renato!
Caramba, valeu pelo link e pelos nomes...eu tinha lembrado do Prof Xavier, ai vc me lembrou do Lex, do Locke (adoro Lost) e etc..acho que esse Top 7 vai sair rápido rs.
bjs

Alysson Mello disse...

muito interessante o post eu ainda não tive a chance de ver esse filme mas a premissa do filme parece ser bem interessante quero muito ver.

Sintia Piol disse...

Sou apaixonada por este filme. Adorei! Ótimo texto.