Diários de Motocicleta

Como tinha informado anteriormente, terei a honra de contar com a colaboração de alguns amigos no blog. Dessa vez, a participação é de Igor Alves – professor do Colégio Elvira Brandão.  







Quero, primeiramente, agradecer ao Renato pelo convite de escrever em seu blog, parabenizando-o pela proposta de difundir e debater o cinema e apoiá-lo nesta importante tarefa de promover o cinema brasileiro.
“Diários de Motocicleta” foi o filme que escolhi para debater. Apesar de não estar diretamente ligado ao cinema nacional, possui uma conexão brasileira através do diretor Walter Salles. Baseado nas anotações de Alberto Granado e de Ernesto Guevara, o filme relata o itinerário dos dois jovens aventureiros argentinos que decidiram viajar pela América do Sul em uma jornada de 12.425 quilômetros.

O filme mostra um lado raramente visto de Ernesto Che Guevara. Diferentemente da imagem comumente apresentada de líder revolucionário comunista em Cuba, o filme procura apresentar as origens do estudante de medicina que durante o início da década de 50, com então 23 anos decidiu fazer uma viagem pela América do Sul acompanhado de seu amigo, Alberto Granado, um bioquímico de 29 anos que sonhava em completar a viagem em seu aniversário de 30 anos. Guevara, por sua vez, buscava especializar-se em tratamento de lepra e para tanto, decidiu viajar para conhecer não apenas os países planejados como, também, o leprosário de San Pablo, na Amazônia Peruana.

A história tem início em Buenos Aires e atravessa paisagens argentinas, chilenas e peruanas. Em cada parada da motocicleta apelidada de “La Poderosa”, assistimos a situações que ora são divertidas e ora são banhadas de tristeza e de questionamentos sobre a difícil situação pela qual passa o povo sul americano.

Ao longo do filme, conseguimos perceber claramente as mudanças pelas quais Guevara passou, de tal forma que é possível ver a transformação de Ernesto para Che. Indubitavelmente, a viagem realizada por Guevara possibilitou que ele elaborasse questionamentos sobre a sociedade de sua época. Em um mundo de Guerra Fria onde a bipolaridade mundial separava os ideais capitalistas dos ideais comunistas e em que a América Latina recebia influências e pressões diretas da potência americana para permanecer alinhada ao bloco capitalista, Ernesto Guevara refletiu sobre as verdadeiras necessidades do povo sul americano e questionou a influência americana no continente.

O filme nos apresenta sociedades urbanas e rurais; sociedades formadas por comunidades indígenas que se mesclam com descendentes espanhóis gerando uma sociedade miscigenada. Não é por acaso que em determinado momento de reflexão profunda de Guevara, ouvimos o estudante já com traços de revolucionário falar que “Do México ao Estreito de Magalhães, formamos uma só sociedade”. Uma sociedade miscigenada onde as fronteiras não separam populações. Os povos sul americanos enfrentaram e enfrentam, ainda, problemas muito similares. A injustiça e a desigualdade social continuam presentes na vida das sociedades retratadas no filme.

Acompanhados de uma trilha sonora tocante, como é o caso de “Al outro lado del rio”, vencedora do Oscar de Melhor Canção Original, nos deparamos com situações dramáticas que nos fazem questionar alguns valores presentes na sociedade atual. As histórias de vida de pessoas que vivem à margem da miséria nos fazem repensar sobre o consumismo atual. O filme nos mostra um lado extremamente humano de Che Guevara, preocupado com as pessoas e com as relações sociais, interessado em entender os problemas e as angústias dos povos e buscando formas de superá-los.

Facilmente emocionável, o filme nos ajuda a compreender a formação econômica, política e cultural da América latina e, logicamente, a origem de alguns problemas da sociedade sul americana contemporânea. Com uma grande quantidade de diálogos que apresentam parte da história dos países, compreendemos como algumas transformações ocorreram com a chegada dos espanhóis à América ou as mudanças sociais com a interferência dos Estados Unidos no continente.

Sendo assim, “Diários de Motocicleta” não é apenas uma história de aventura por diferentes paisagens da América do Sul, que por si só já seriam merecedoras de qualquer prêmio de fotografia no cinema. É um verdadeiro retrato do povo sul americano e de sua formação, em que percebemos o quanto da nossa própria história foi moldada ou construída por outros povos. Assistir ao “Diários de Motocicleta” é permitir-se humanizar e refletir sobre aspectos culturais, econômicos e políticos deste grandioso e belo continente chamado América do Sul e de sua população sofrida e corajosa que encontra, mesmo diante das dificuldades, motivos para lutar e viver.


“Diários de Motocicleta” é um ótimo exemplo do motivo de o Cinema ser a arte da emoção.

Igor Alves D. de Oliveira


5 pipocas!

1 – pipoca – péssimo
2 – pipocas – ruim
3 – pipocas – razoável / regular
4 – pipocas – bom
5 – pipocas - ótimo



14 comentários:

! Marcelo Cândido ! disse...

Faz tempo que vi esse filme, gostei muito da fotografia...
!!!

K disse...

Muito bom esse filme....
blogtvmovies.blogspot.com

Rosane Marega disse...

Re, gosto não, porque...ADORO você Re!!! O temo as vezes judia e nos afastamos dos queridos amigos, mas, prometo não delorar mais para aparecer ta.
BeijossSSSSS no coração pessoinha especial!!!

Hugo disse...

É um ótimo road movie, apesar de ser uma visão romanceada da vida de Che, que com certeza era um sujeito bem mais bruto que o personagem de Gael Garcia Bernal.

Abraço

Fábio Henrique Carmo disse...

Grande filme. Bastante poético e típico do seu diretor, o nosso Walter Salles, que adora um road movie. Já o vi umas 3 vezes. Abraço!

Celo Silva disse...

Gosto muito do filme e da maneira inocente que Che Guevara é tratado. Ando ansioso por On The Road, esse tb promete. Otimo texto!
Grande Abraço.

Rodrigo Mendes disse...

Legal as colaborações Renato, o texto do Igor ficou ótimo. "Diários" era uma história que precisava ser contada no cinema e graças a Deus foi pelo olhar do Walter Salles. Um filme que traz ótimas interpretações, fotografia soberba e roteiro no ponto. Filmão.

Abraço.

Guará Matos disse...

Abrir à participação de outros é bacana e salutar.

Abraço.

Silmara disse...

Além de ser um bom filme, queria destacar a análise pertinente do professor Igor, que atravessou "poderosa" a arte e a sociologia. Tenho orgulho de ser sua colega!

Gabriel França disse...

Quero ver esse filme, depois de estudar bastante sobre a Revolução Cubana vai ser interessante analisar o longa.

http://monteolimpoblog.blogspot.com.br/

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Ótima resenha, Igor. O Salles realmente é um dos nossos maiores diretores.

O Falcão Maltês

Karla Hack dos Santos disse...

Este é um dos meus Road Movies preferidos!!! Além de mostrar um lado completamente diferente de certos eventos históricos, é um deleite ver tanta beleza latina nas paisagens!!

Sem falar do Gael... ai ai (hehhehe)

Estou com um novo blog!
http://antesqueordinarias.blogspot.com.br/

;D

Rubi disse...

Acredita que nunca assisti este filme? Há muito tempo que este filme faz parte da minha lista, e agora, depois de ler sua resenha fiquei ainda mais interessada.

Felipe Rocha disse...

Boa tarde meu amigo. Primeira vez em seu blog. Adorei o blog. Mto bom, até para fazermos uma parceria caso o interesse.

E em relação ao post, belo texto msm!
Sou fã desse filme! E Gael Garcia tb dah um show à parte!!!

O Cinéfilos está comemorando 1 ano de existência!!! Passe por lá pra dar aquela força!!

http://cinefilosdeplantaobr.blogspot.com